A Família                                          Exposições | Premiações

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Marilu | Martha | Sávia
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O fio da meada , o avesso e o círculo do bastidor

O grupo Matizes Dumont é formado por seis artistas de uma mesma família de Pirapora, Minas Gerais, e é composto pela mãe Antônia Zulma Diniz Dumont e cinco filhos: Ângela, Marilu, Martha, Sávia e Demóstenes. Com a vida a andar, o círculo em sua vitalidade ampliou-se com a participação da terceira geração (Luana, Tainah, Maria Helena, Paula e Luíza).

Iniciamos a vida bordadeira desde criança, pelas mãos de mamãe, e foi bordando peças utilitárias, em finos tecidos de cambraia, linho, prometi, seda, organza ou algodão, é que descobrimos nosso próprio movimento de criar outros bordados, que iam se transformando em telas que ilustram histórias, e hoje chegam em forma de livros para todas as idades. Ilustramos obras de grandes autores brasileiros, como Jorge Amado, Ziraldo, Manoel de Barros, Thiago de Mello, Rubem Alves, Carlos Brandão, Tetê Catalão, e também livros de duas das bordadeiras, Ângela e Sávia.

Dedicamo-nos às artes plásticas e a desenvolver imagens bordadas que se transformam em ilustrações de livros, à arte-educação, a projetos de mobilização social por meio da arte.

Delicados fios de algodão ou seda, trançados em forma meadas, as tramas da tecelagem, papéis de seda e agulhas estão presentes na vida da família Diniz Dumont, há mais de 50 anos. Mamãe esperava sua primeira filha, e criava imagens bordadas com as quais enfeitava o enxoval da menina.

Nascemos numa comunidade ribeirinha, e como muitas mulheres da nossa geração, aprendemos a bordar desde criança. O rio e o bordado são as linhas da nossa vida, tomada pelas águas dos riachos, córregos, cachoeiras, dos rios e dos mares que nos inquietam na busca da vida profunda.

Aprendemos a bordar com uma mãe bordadeira clássica, que fazia suas artes entre os afazeres domésticos, seguindo modelos de panos de amostra, com pontos já definidos, como tantas bordadeiras. Com ela aprendemos a descobrir as luzes, os movimentos, as formas, as cores e matizes da natureza, o que nos permitiu ter um outro olhar sobre a arte de bordar e conferir atualidade à arte milenar praticada anonimamente pelas mulheres em sua vida diária, costumeira.

Dessa aprendizagem cotidiana e antiga, passamos a fazer caminho outro, singular, escolhendo o movimento e a liberdade para criar. Adotamos um pressuposto para nortear nosso bordar: o risco é um caminho a ariscar, a escolher ou refazer. O círculo do bastidor passa a limitar a criação, e o dedal nos tira os movimentos, o avesso transforma-se em novas possibilidades.

Escolhemos então um fazer liberto de amarras e pontos marcados e limitadores. São significações nossas, mas se outras bordadeiras escolhem outros matizes e agulhas, são sentidos e significados de alteridade ao criar.

A vida vivida é o fio da meada que ao longo de tantos anos nos liga e nos possibilita criar, fazer com as mãos, com a emoção e com a alma a nossa arte. Fizemos uma opção de arte que tem como eixo a linha da imaginação solta – “que nosso imaginário nos guie é o que falamos para nós mesmas cada vez que iniciamos um projeto.”

Brasília, 2010.
Ângela, Marilu, Martha, Sávia

MATIZES DUMONT: TRABALHO TRANSGERACIONAL E DE CRIAÇÃO ESPONTÂNEA

As criações bordadas iniciadas pela mãe, são na verdade uma iniciação transgeracional: são três gerações de uma mesma família bordando de forma interativa.

Crescemos em volta de caixas e caixas de meadas, novelinhos coloridos, delicados fios de algodão ou de seda que pespontam nossas vidas. Foram nossos primeiros brinquedos e sonhos. Aquelas cores e texturas bordam o lúdico, a alegria, os problemas em ponto de nós a serem desfeitos, refeitos com inspiração e inventividade e engenhosidade. Ainda agora, como antes, nesta família pode-se ver criança (da quarta geração) tomando contato com linhas, cores, formas ainda cedo, e enquanto não é tarde para aprender e assumir a vida em sua complexidade.

Hoje as netas (terceira geração de bordadeiras da família Dumont) já participam das diferentes práticas com o bordado; Luana, Tainah, Maria Helena, Paula e Luíza compartilham do desenvolvimento das diferentes oficinas para mobilização social - práticas sócio-educativas relacionadas à temática do meio ambiente e responsabilidade sócio-ambiental por meio do bordado. Participam ainda de outras realizações do grupo, como os Poemas Bordados, que são recados poéticos em pequenas telas, cuja inspiração são os lenços portugueses. O formato é de correspondência amorosa - um colóquio bordado, amoroso e poético, idealizado pelo Grupo Matizes Dumont. Quanto à Carolina, Juliana, Isabela e Marina, apresentam interesse pelo bordado, mas no momento bordam a vida de outras formas criativas, e cada uma há seu tempo compartilha com o grupo esses saberes e outros.

Muitas são as formas com que O Grupo Matizes Dumont utiliza-se do bordado: como ilustração de livros, como forma de expressão nas artes visuais, como forma de expressão para a mobilização e inclusão social e humanização, para a responsabilidade sócio ambiental, ou em processos de grupo e desenvolvimento humano.

O bordado como forma de expressão nas artes visuais e o processo de criação das telas:

São telas bordadas em diferentes tamanhos e materiais. “Este grupo de artistas resolveu acrescentar nova função de artes visuais ao bordado antigo, criando uma tapeçaria minimal, com características muito pessoais. Ele repete no bordado as qualidades cromáticas da pintura, a partir da percepção da natureza. Esses trabalhos mantêm o mesmo processo de elaboração de tempos remotos, recriando, todavia, novos pontos, inserindo tecidos com texturas adequadas aos motivos e propostas de composição. Esta por sua vez, baseada em desenhos do irmão Demóstenes, percorre caminhos simbólicos, com sua vitalidade religiosa ou folclórica; noutra imagem aborda a paisagem pura, outras vezes ingênua, lúdica, com crianças brincando numa dança de cores, linhas e tessituras.” (Maristela Tristão, crítico de arte-BH).

As telas são feitas de forma interativa pela mãe, quatro filhas e o filho. A criação de uma tela tem momentos distintos e todos são igualmente importantes e de grande elaboração.

Primeiro é a concepção e inspiração do desenho pelo irmão Demóstenes, que é artista plástico. Em seguida, Marilu escolhe os tecidos, e em momentos de emoção às vezes cria cenários, reorganiza composições, recria espaços aonde cada uma das bordadeiras vai novamente colocar suas emoções, suas escolhas e ariscar-se em criações espontâneas. Durante o processo de bordar serão compostos novos desenhos, formas, volumes, e a bordadeira escolhe ela mesma, as cores das linhas, a textura, ou mesmo se o fio é de seda, de algodão, fino ou não. A bordadeira, portanto, não preenche apenas os desenhos: ela recria num rico momento de improvisação e espontaneidade.

As linhas utilizadas são muito variadas, desde as linhas tradicionais usadas em bordados antigos - finas, de algodão ou de seda. As linhas e fios são garimpados também em velhos armarinhos de recantos do Brasil e do mundo. A utilização delas é absolutamente livre. Os pontos são baseados no bordado clássico, aprendidos com a mãe, e hoje reinventados, com outro ritmo: ponto matiz, ponto rococó, ponto areia, ponto folha, escama de peixe, confusão ponto corrente, ponto cheio, ponto folha, ponto haste, ponto atrás, carocinho, alinhavos e pespontos, dentre outros que viram brincadeiras e surpreendem numa nova estética.

Algumas telas são feitas especialmente para ilustrar a palavra de autores brasileiros, a arte milenar da agulha e linha transformada em nova linguagem gráfica, que chega sob a forma de livros para todas as idades.

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